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ONDE FUCIONA O CULTO?
Muitos já estão bem familiarizados com a “questão dos templos”. Sabemos que nós somos o santuário do Espírito Santo, e que Deus não habita em construções feitas por mãos humanas. Por isso, compreendemos a razão de não chamarmos o lugar utilizado para reuniões da Igreja de “templo”.
A lógica é bastante simples: na antiga aliança a presença de Deus estava em um lugar físico específico (o tabernáculo primeiro, depois o templo); na nova, em nós mesmos (que “somos templos”), pelo seu Espírito que nos foi dado.
Consideremos, agora, a “questão dos cultos”. Podemos antecipar afirmando que, da mesma forma que a lógica da antiga aliança girava em torno do tabernáculo/templo enquanto um local físico, sua dinâmica girava em torno do culto enquanto a prática de atos de adoração (como a queima de incenso, o sacrifício de animais, a música constante, etc.).
Feita essa observação inicial, é interessante notar que no Novo Testamento o substantivo grego latreía (culto) aparece apenas cinco vezes (Jo 16.2, Rm 9.4 e 12.1, Hb 9.1 e 6). Há também, obviamente, ocorrências do verbo latreýo (cultuar), verbo que, em algumas versões, é traduzido por “prestar culto” – textos em que o substantivo usado em Português na verdade decorre de um verbo, no Grego (como, por exemplo, em Mt 4.10). E a ideia do verbo latreýo é bastante simples: servir. Vejam-se os textos de Mt 4.10, Rm 1.9 e Hb 9.14; em todos é utilizado o verbo latreýo.
Vamos, então, ao substantivo (latreía; culto). De todas aquelas cinco ocorrências do substantivo “culto” no original do Novo Testamento, apenas uma está diretamente relacionada à vida da Igreja. Por sua importância, ela será deixada por último, demonstrando-se primeiro as ideias de culto que não estão relacionadas à nova aliança e à vida da Igreja.
Primeiramente, temos o texto de Jo 16.2. Ora, Jesus claramente não está falando da Igreja. Quer dizer, ao menos não está relacionando o culto diretamente à Igreja, mas sim à ideia de culto que fazem os seus perseguidores (“todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus”)
Já quanto a Rm 9.4, Hb 9.1 e Hb 9.6, sua simples leitura é suficientemente esclarecedora à compreensão de que se está tratando do culto da antiga aliança. Como os textos falam por si só, qualquer comentário é até mesmo dispensável.
Assim, a única passagem do Novo Testamento que trata do culto no contexto da nova aliança firmada em Cristo (esclareça-se, a propósito, que o título “A necessidade de ordem no culto”, encontrado, na Almeida Revista e Atualizada, sobre o versículo 26 do capítulo 14 de 1 Coríntios não consta no original; antes, a ideia do texto é bem clara – e despida de maiores formalidades: Paulo escreve, singelamente, “quando vos reunis”) é Rm 12.1:
“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”
O texto também fala por si só. Diga-se, apenas, que o culto no Novo Testamento é a própria vida do discípulo. Nada mais coerente. Afinal de contas, se a presença de Deus não está mais em um lugar físico (o templo), mas em nós (que somos templos), nada mais natural que o culto não dependa mais daquele lugar, mas que diga respeito às nossas próprias vidas.
Percebe-se, portanto, uma clara mudança de paradigma, da velha para a nova aliança: os atos de adoração no templo (lugar) são substituídos por uma vida de adoração do templo (pessoa). Há uma evidente relação dessa verdade com a afirmação de Jesus em Jo 4.23 e 24. Da mesma forma, o texto de Hb 9.14, já mencionado, após tratar do sacrifício de Cristo (que purifica “nossa consciência de obras mortas”), afirma que esse sacrifício nos possibilita “servirmos ao Deus vivo!” No original, cultuarmos (latreýein, primeira pessoa do plural de latreýo).
O objetivo da presente reflexão, esclareça-se para encerrar, não é retirar a importância das reuniões da Igreja – senão apenas demonstrar que estas reuniões não podem seguir a lógica de um “culto sagrado” (doutra sorte estaríamos debaixo da antiga aliança). Obviamente que as reuniões da Igreja são muito importantes, como expressão de unidade, para exaltação coletiva do nome do Senhor Jesus, como forma de possibilitar a comunhão dos irmãos e o ensino da Palavra. Não podemos esquecer, ainda, do já mencionado texto de 1 Co 14.26 (e versículos seguintes), que bem esclarece que as reuniões dos discípulos são um momento em que deve haver liberdade – e ordem – para as manifestações do Espírito Santo. Por outro lado, a advertência de Hb 11.25 não diz respeito apenas ao comparecimento a reuniões semanais, na medida em que poderia ser simplesmente traduzida por “não deixemos de nos reunir.”
Pretende-se apenas demonstrar, assim, que a vida da Igreja não está centrada em “cultos” como atos de adoração – assim como não gravita em torno de um “templo” enquanto um lugar físico. O verdadeiro culto que o Pai espera de seus filhos é o “culto racional”, uma vida completamente entregue ao governo de Cristo e à direção do Espírito Santo – adoração “em espírito e em verdade”.

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